A liberdade para ser mãe e para não o ser. Esta é a frase que nos serve de ponto de partida para esta reflexão. Do que falamos quando nos referimos ao desejo de ser mãe ou à ausência dele? Este é um tema tão complexo e multifatorial, contempla tantas intersecções de circunstâncias individuais e coletivas que seria impossível esgotá-lo neste texto. Assim, não caberá neste espaço, por exemplo, a abordagem das singularidades inerentes à experiência de um projeto de maternidade que inclui a perinatalidade (conceção, gravidez, parto e pós-parto). Então, a proposta que trago ao leitor é que me acompanhe nas próximas linhas tendo-as como preliminar de uma reflexão imperativa e pertinente nos tempos atuais. Tempos esses em que novas configurações familiares, relacionais e identitárias impulsionam a quebra de paradigmas sociais, económicos e políticos.
A ideia de liberdade, tão concretamente apresentada no título, precisa também ser pensada, esboçada e nomeada, longe de vir a ser totalmente explicada dada a sua natureza filosoficamente controversa e profunda. Bebendo da ideia de liberdade trazida pelo filósofo Baruch Spinoza, citado pela filósofa Marilena Chaui, sermos livres contém o espaço para autonomia e autodeterminação, reconhecendo a nossa responsabilidade pelo nosso mundo interno de sentimentos, pensamentos e ações e assumindo as nossas possibilidades sem perder de vista a recíprocra influência que existe entre nós e aqueles com os quais nos relacionamos e os lugares históricos e sociais que ocupamos. Neste contexto, o que seria ser livre? Ser livre para ser mãe e para não o ser? Proponho partirmos da premissa trazida por Spinoza e apontaríamos que uma pessoa será livre para ser ou não ser mãe quando está subjacente a essa decisão um escolha informada intelectual e emocionalmente tanto quanto possível, amparada no autoconhecimento e reconhecida em respeito e legitimidade pelo contexto que circunda a pessoa. E é aqui que mora a intencionalidade deste artigo.
Muito haveria a dizer sobre a maternidade real e os seus atravessamentos biológicos, psicológicos e socioculturais. Mas antes de ela ser vivida na sua experiência concretizada, ela precisa ser pensada, imaginada, projetada numa narrativa de vida feita de antes e depois. Integrada, sob forma de afirmação ou negação, no todo que é a nossa vida psíquica para, somente depois de tudo isto, ser ponderada e decidida. Assumindo que quando nos referimos a maternidade e ser mãe falamos do ato de cuidar e ser figura de referência de cuidado de um infante/adolescente, independentemente da filiação biológica ou parentesco existir ou não, pressupondo portanto a alusão a uma filiação psíquica onde o que define o lugar de mãe é o vínculo e a função materna exercida.
O desejo de ser mãe pode estar presente desde fases mais precoces de vida, como a adolescência, pode ser contruído ao longo do desenvolvimento gradualmente acompanhando a nossa construção identitária, pode ser concebido enquanto um dos propósitos de vida ou um objetivo importante mas não incontornável, pode ser ansiado e imaginado a solo, ou até nascer dentro de uma história de amor que nos inspira a querer viver outros laços afetivos através da parentalidade sem que nunca antes tenhamos pensado nela como possibilidade. Do mesmo modo, a certeza de que a maternidade não é para nós, não é um propósito, um desejo ou sonho que nos cabe e representa, acontece como uma realidade singular, válida e legítima, estando também ela presente em nós desde diferentes etapas de vida. De toda a maneira, tendo filhos ou nunca tendo sentido a vontade de os ter, a questão da maternidade é um ponto central do processo de elaboração do entendimento de nós próprios como indivíduos e do nosso lugar no mundo, por isso ela carrega em si uma clara dimensão existencial.
Do ponto de vista dos fatores de influência pessoal e da nossa história de vida, o desejo de ser mãe ou de não o ser, pode estar agregado às expectativas sociais e familiares e dos eventuais parceiros/as de relação; à noção de família que internalizamos através dos modelos da família que conhecemos e normalizamos; à qualidade dos vínculos que criamos com as nossas figuras parentais e como testemunhamos a sua vivência da parentalidade como algo gratificante ou não; aos critérios de realização pessoal e significância da vida que direta ou indiretamente aprendemos a tomar como os certos; à função existencial que atribuímos ao facto de ter filhos, podendo ver neles a continuidade de quem somos e a subversão da nossa finitude humana; etc.
Perante esta tecedura multifatorial, torna-se tão difícil quanto necessário partir em busca de discernir de onde vem o nosso desejo de ser ou não ser mãe, o quanto ele é verdadeiramente nosso e/ou partilhado e aprendido, onde começa dentro dele a nossa liberdade e autodeterminação e onde ela se cruza com a inevitável interação do reportório sociocultural e da necessidade de validação e pertencimento inerente à nossa humanidade.
Quando o sonho da maternidade passa por gestar e parir, porque não é obrigatório e exclusivo que assim seja, o passar do tempo poderá suscitar uma maior angústia e ansiedade, sobretudo após a entrada na terceira década de vida a partir da qual a dimensão biológica começa a sinalizar um suposto prazo de validade à fertilidade e capacidade reprodutiva na sua perspetiva mais fisiológica. Ao mesmo tempo, um outro desafio se coloca quando o desejo de ser mãe invoca um conflito interno fruto da concomitância de uma concepção do papel de mãe, trazida pelo mito do instinto materno nascido no século XVIII (para saber mais do tema procurar o trabalho da filósofa francesa Elisabeth Badinter), como um lugar social e um papel de vida único e insusbstituível da mãe/mulher (entenda-se mulher ou pessoa do gênero feminino que irá desempenhar esse papel) na criação dos filhos e na economia de cuidado, e a exigência de uma posição competitiva e inesgotável no mercado de trabalho. Estando integrados numa economia neoliberal e estruturalmente maternalista, é esperada a capacidade de sustentar o exercício constante de malabarismo entre as funções laborais e a sobrecarga materna.
Assim, estando cada vez mais conscientes da maternidade real, feita de desafios e sombras, a convicção do querer ser mãe começa a partilhar o nosso espaço interno com questionamentos sobre o quanto a concretização desse querer nos vai pedir e competir com outros sonhos, papéis de vida, relações de amizade e amor, objetivos e projetos profissionais e financeiros, e até onde nós estaremos dispostos a ceder e abdicar.
No final do dia, longe da romantização e idealização da maternidade e da vida moderna, quando refletimos sobre ser ou não ser mãe sentimo-nos na antecâmara de uma exaustão que propicia o protelar da concretização da maternidade desejada, invadidos por medos de não darmos conta e de nos perdermos de nós mesmos.
E tudo isto, ainda é, na maioria das vezes, vivido de forma solitária, dado que continuamos a atribuir uma parte esmagadora da economia de cuidado ao gênero feminino, esquecendo que se a escolha de gerar e ser mãe é e precisa ser individual, a educação e a criação dos filhos, da nova geração, é algo que deverá estar a cargo da família e da sociedade.
Cuidar, amar e criar não são qualidades garantidas nem exclusivas da natureza feminina, hoje sabemos disso. Contudo, a culpa e o medo de não sermos totalmente realizados e aceites são sentimentos comunmente presentes em quem quer e decide ser mãe e em quem não quer ser mãe e decide não o ser.
Quando é claro que não queremos ser mãe, concluindo que a maternidade só habitou as nossas projeções de vida por uma replicação de padrões e referências sociais e familiares estruturais relativas à economia reprodutiva e de cuidado que nos acompanham desde a infância, teremos que viver com a cobrança e julgamentos externos mais ou menos velados em perguntas que se colocam quase sem pensar a mulheres ou pessoas com útero em idade reprodutiva: ”Para quando filhos?”; “E tu quando vais ser mãe?”; “Mas há algum problema contigo para não quereres ter filhos?”; “Mas já pensaste bem nisso? Olha que é a melhor coisa do mundo.”, etc. E é aí que tudo o que se é e se vive enquanto pessoa é colocado em segundo plano como se as experiências e a vida que se constrói alheada de um projeto de maternar não tivessem inteireza e sentido em si mesmos. Como se estarmos felizes e realizados e isso não ser sobre nos sentirmos completos porque somos mãe, fosse uma espécie de versão clandestina ou impostora de felicidade, sempre assombrada por um pedaço que lhe falta, o pedaço que todos aprendemos a atribuir ao execício da função materna.
É neste contexto que surge na literatura sociológica o conceito maternidade compulsória , termo que vem nomear o fenómeno de pressão social exercido por valores socioculturais e por práticas económicas e políticas que conduzem as mulheres a serem ou desejarem ser mães, mesmo que isso não resulte de uma escolha verdadeiramente livre e sem considerar as circunstânscias pessoais e socioeconómicas individuais.
O impacto emocional, com sentimentos de culpa e inadequação, o impacto relacional com desconfortos e frustrações de expectativas do outro, e o impacto social, com a invisibilização e estigma das mulheres/pessoas que não querem ter filhos, que advém deste fenómeno constituem fontes sistémicas de sofrimento psíquico que precisa ser escutado, reconhecido e cuidado não só no espaço psicoterapêutico como no espaço público. Pensarmos coletivamente, falar sem tabus, discutir mais vezes, desde fases mais precoces da vida e em mais lugares, sobre isto, é essencial para aumentarmos a nossa compreensão sobre direitos reprodutivos e saúde mental e apresenta-se como um debate incontornável e necessário para a reconfiguração de uma sociedade que se quer mais justa e horizontal para todos, todas e todes.
A pergunta que fica é: como seria o processo de tomada de decisão para a pessoa que está perante a escolha de ser ou não ser mãe num cenário onde cuidar das próximas gerações fosse verdadeiramente incumbido a todos como coletivo familiar e social, abrindo espaço para o ir e vir das figuras de cuidado que juntas edificariam um ambiente suficientemente bom para o desenvolvimento salutar das novas gerações? Será que ainda estaríamos perante a necessidade de reinvindicar esse espaço de liberdade para ser ou não ser mãe? Seria a ambivalência de afetos presente nessa esfera da vida tão contundente e transversal? Esta decisão ainda seria vivida com mais ênfase pelo genero feminino, comparativamente à forma como é vivida pelo genero masculino, se não tivessemos esta herança histórica do maternalismo, que por séculos propagou no imaginário coletivo a ideia de que uma mulher é por natureza uma mãe? Será que ainda teríamos tanto medo de não dar conta de ser a mãe suficientemente boa? Será que ainda duvidaríamos sobre a nossa capacidade de nos sentirmos uma pessoa suficientemente boa, compreendida e respeitada mesmo não tendo por desejo e projeto de vida ser mãe? Acredito que não deixaríamos de ser o ser humano que somos, por natureza existencialmente inquieto e questionador, angustiado com os seus limites e impotências, mas pressinto que esse processo de decisão e escolha seria um tanto ou quanto mais leve e mais livre.
O projeto de maternidade/parentalidade acontece de formas diversas para diferentes pessoas, sendo inegável que, como qualquer tema da vida humana, ele é atravessado pelo contexto histórico, social e cultural e que é nessa influência que nasce a nossa subjetividade individual. Como nos diz a psicanalista Vera Iaconelli, no seu Manifesto Antimaternalista, cuja leitura recomendo veementemente, “…reavaliar as nossas crenças sobre a maternidade é o primeiro passo – e pré-requisito – para que encontremos soluções sustentáveis para as infâncias e a para a luta das mulheres.”. Atrevo-me a apropriar-me desta ideia e apontar a problematização do tema como passo essencial na busca pelo entendimento e escuta do desejo de ser mãe ou de não o ser.
Que modelos tenho de maternidade? Que expetativas construí para mim e em que lugar aprendi a colocar o projeto de maternidade na minha narrativa de vida? Onde me identifico e desidentifico dessas referências? Independentemente de esse ser um sonho, como me vejo para lá dele? Quem eu sou e que papeis de vida me constituem como sujeito? De que é feito o meu lugar de pertencimento social e como a minha visão de mundo permeia a minha vontade de ter ou não ter filhos? Que pressões sociais e culturais me pesam na hora de reconhecer que a maternidade é ou não é um desejo ou plano para a minha vida? Estas, como outras provocações que já vimos aqui, são algumas das questões que poderão ser exploradas em conjunto num âmbito psicoterapêutico que tem por premissa apoiar o processo de elaboração de pensamentos e sentimentos que organizam a nossa subjetividade. Sendo que é quando a compreendemos e vivemos de forma plena que estamos mais capazes de construir para nós uma vida significativa, sendo ou não sendo mãe.
Enfim, como dissolver a névoa dos medos, dos anseios, das dúvidas, dos mitos e expetativas que habitam os espaços em nós, vizinhos dos sonhos, das alegrias e do entusiasmo. Inquilinos num mundo interno que é só nosso, mas que não existe sem esta interação dinâmica com o que recebemos do Outro_ família, amigos, referências, ancestrais, histórias e estórias que se teceram no nosso ouvido desde sempre.
Quando conduzimos ou caminhamos na névoa ela tende a fazer-nos abrandar o ritmo, observar com mais atenção, lembrar o que se perde quando nos movemos sem atentar aos detalhes essenciais e não essenciais, pedir que executemos um exercício de busca por saber mais sobre o que está ali em frente e sob o lugar em que pisamos. Esta névoa vem pedir também qualquer lugar de confiança em nós que nos permita seguir esperançados e com o pouco mais que sabemos e o outro tanto que não conseguimos antecipar dos pedaços de caminho que se seguem. Esta névoa está cada vez mais presente na trajetória feminina, ou não querendo ser exclusiva, da pessoa passível de viver a maternidade. Uma névoa que pode ser olhada com uma companhia profissional que amplia o olhar, escuta e acolhe o sentir, mas que sempre precisará de uma escolha individual e o mais livre possível para ser atravessada com respeito pela subjetividade de cada um.
Sara Araújo
Psicóloga da Infância e Adolescência
mim – Clínica do Desenvolvimento


