O PESO INVISÍVEL DAS ESCOLHAS

No tempo de florescer, muitos adolescentes enfrentam o peso das decisões e o medo de falhar.

O barulho dos corredores é o mesmo de sempre, mas para Marta, 17 anos, o mundo à volta está em surdina. Enquanto espera pela aula de Matemática, olha para o telemóvel: a candidatura ao ensino superior já é uma constante na sua cabeça. “E se eu escolher mal?” — a pergunta repete-se como um eco.

Programas sobrecarregados, testes constantes, rankings e exames nacionais reforçam a ideia de que cada nota define o futuro. A competitividade entre colegas e a obsessão por médias elevadas transformam o ambiente escolar num espaço de avaliação contínua e comparações, o peito aperta, a respiração acelera. Marta não está sozinha. Em Portugal, quase metade dos adolescentes apresenta sinais de depressão, e para muitos, a escolha académica tornou-se uma fonte constante de ansiedade.

A pressão começa cedo. Ainda no 9.º ano, já se fala em médias, saídas profissionais e “o que dá dinheiro”. Aos poucos, o entusiasmo por aprender dá lugar ao medo de não corresponder às expectativas. A vida escolar, que devia ser um espaço de descoberta, transforma-se numa corrida cronometrada onde não há tempo para errar.

O mundo digital trouxe oportunidades reais e entusiasmantes — desde programadores de videojogos a especialistas em marketing de influência ou criadores de conteúdos nas redes sociais. Mas a forma como estas carreiras são apresentadas cria um enviesamento perigoso: o sucesso parece rápido, fácil e acessível a todos. Para um adolescente, ver colegas ou desconhecidos ganhar milhares de seguidores, viajar pelo mundo e receber patrocínios pode gerar a sensação de estar “atrasado” ou “a falhar”. Esta comparação constante ignora o trabalho invisível, a instabilidade financeira e a curta duração de muitas destas carreiras. O resultado é uma pressão silenciosa para corresponder a padrões irrealistas — mais um fator que fragiliza a saúde mental.

A pressão de ser “excelente” está a deixar os jovens doentes

  • 45,4 % dos adolescentes portugueses mostraram sintomas depressivos em 2022–2023.
  • 14,8 % com sinais moderados e 15,3 % com sintomas graves.
  • As jovens raparigas são mais afetadas — sentem menos autoestima e mais angústia.
  • O uso excessivo de redes sociais (acima de 3 horas/dia) agrava os sintomas.
  • O medo de falhar nas escolhas escolares e profissionais é um dos principais gatilhos de ansiedade nesta faixa etária.

Estes números não vivem apenas nos relatórios: estão nas mochilas pesadas que entram todos os dias nas salas de aula, nos olhares cansados a meio da manhã, nas conversas curtas ao jantar. Muitos adolescentes descrevem a sensação de caminhar num corredor estreito, com portas que se fecham à medida que avançam — como se cada escolha fosse definitiva e não houvesse espaço para mudar de ideia.

Outro provável fator que adiciona outra camada de peso sobre os adolescentes é a superproteção parental. Pais e responsáveis, movidos pelo desejo de proteger, tendem a intervir em cada dificuldade ou decisão dos seus filhos, resolvendo problemas por eles e limitando a experiência de erro. Embora nasça de cuidado, esta atitude pode gerar jovens com menor autonomia, dificuldade em lidar com frustração e insegurança na tomada de decisão. Quando chegam à adolescência, enfrentam dilemas académicos e pessoais sem ter aprendido a confiar na própria capacidade de resolver problemas, aumentando ansiedade e medo de falhar.

Muitos jovens sentem que não estão apenas a decidir o seu futuro, mas também a corresponder às expectativas ou aos sonhos que os pais não realizaram. “Escolhe algo seguro, como eu queria ter feito” ou “Não repitas os meus erros” são frases frequentes que, mesmo ditas com amor, podem gerar culpa, medo de desiludir e sensação de inadequação. Esta cobrança silenciosa aumenta a ansiedade e alimenta a ideia de que o sucesso ou a felicidade dependem exclusivamente do cumprimento dessas expectativas, em vez de respeitar os interesses e o ritmo de cada adolescente.

Mas há formas de aliviar este peso.

  • Falar e escutar com atenção: conversas diárias sem julgamento, validando sentimentos.
  • Gerir a ansiedade: exercícios de respiração, atenção plena e pausas no estudo.
  • Reforçar autoestima e autonomia: valorizar progressos, não só notas; permitir decisões graduais.
  • Limitar redes sociais: horários de desconexão e reflexão sobre conteúdos consumidos.
  • Apoio escolar e orientação vocacional: mostrar que mudar de curso ou carreira é normal.
  • Ambiente familiar positivo: rituais de conexão e espaço seguro para dúvidas.
  • Atenção profissional: procurar ajuda especializada sempre que necessário.

Também é importante reconfigurar a narrativa em torno do ensino superior. Um curso não define uma vida inteira. Hoje, as carreiras são flexíveis e muitos profissionais reinventam-se várias vezes. Mostrar aos jovens que podem explorar caminhos diferentes e que mudar de rumo é possível, pode libertá-los do medo paralisante de “errar para sempre”.

A boa notícia? A saúde mental é tratável e, melhor ainda, pode ser prevenida. Quando as escolas promovem o diálogo, quando os pais escutam sem julgar, e quando a sociedade valoriza o bem-estar acima do desempenho, os jovens florescem.

A adolescência é um terreno fértil — precisa de cuidado, não de pressão. E cada adulto atento pode ser a diferença entre um colapso e um recomeço. Porque, no fim, o que mais conta não é escolher “o curso certo”, mas criar um ambiente onde cada jovem possa, primeiro, escolher ser saudável e feliz.

Henrique das Neves

Psicóloga da Infância e Adolescência

mim – Clínica do Desenvolvimento