A pessoa de idade mais avançada

É do conhecimento geral o amplo envelhecimento da população mundial nas últimas décadas. Em 2000, 600 milhões de pessoas da população mundial tinha mais de 60 anos, perspetivando-se que este númeno venha a duplicar em 20251.

Esta mudança demográfica obriga a população a adaptar-se a novos desafios e necessidades outrora desconhecidos. O processo de envelhecimento é caracterizado por inúmeras alterações biológicas, psicológicas e sociais2, o qual implica a adaptação a novos papéis, atividades e rotinas quer da população mais envelhecida, quer das gerações mais novas. O aumento da esperança média de vida acompanha-se frequentemente da chegada à idade da reforma, da perda da força sanitária de outros tempos e do declínio cognitivo por vezes incapacitante. Estas mudanças podem imprimir um sentimento de perda de estatuto social e económico que pode ser agravado pela comum dependência de terceiros nos autocuidados. A agravar, com o mundo crescentemente globalizado a partida dos familiares mais jovens deixa muitas pessoas com idade mais avançada a viverem sozinhas ou com necessidade do recurso a casas de repouso, tendo por vezes que enfrentar sentimentos de solidão às vezes agravados pela perda do “companheiro de sempre”. Estas mudanças podem gerar variados graus de isolamento, marginalização e estigmatização3.

Com o aumento da idade surge também um maior número de doenças, que são frequentemente crónicas e múltiplas. Problemas psiquiátricos coexistem muitas vezes com outras patologias médicas, exigindo prestação de cuidados de saúde não raramente complexas e multidisciplinares. Até 2/3 dos doentes com mais de 65 anos em enfermarias de hospitais gerais padecem de patologia psiquiátrica3, sendo as condições psiquiátricas mais comuns a demência, o alcoolismo, a ansiedade e as alterações do humor4.

Uma das doenças mais preocupantes nesta população é a demência, uma condição caraterizada pela progressiva deterioração das funções cognitivas, muitas vezes acompanhadas por alterações psicológicas e comportamentais. Estas alterações podem provocar um impacto muito significativo na vida do doente, com interferência no seu quotidiano e autonomia. A necessidade de apoio de terceiros nos cuidados mais básicos é comum, sendo que muitas vezes os cuidadores estão sujeitos a um grande desgaste que é ocasionalmente ocultado ou negligenciado.

Estas e outras alterações e dificuldades vividas pelas pessoas de idade mais avançada e seus cuidadores são crescentes e não podem ser ignoradas, quer pelas instituições mais especializadas, quer pela população em geral. É assim premente o aumento e a melhoria das respostas de apoio que podem ser oferecidas a esta população.

1- Behavioral and psychological symptoms of dementia; IPA guide, 2012; disponível em ipa-online.org

2- Cardoso RM, Competências Clínicas de Comunicação. In: Gonçalves e Braga MF, Entrevista com o doente de idade avançada, Porto,2012

3- Sample D, Smyth R. Old age psychiatry: Oxford Handbook of Psychiatry, 3th edition, Oxford, 2013

4- Coffey CE, Cummings JL. Textbook of Geriatric Neuropsychiatry IN: Cummings JL and Coffey CE; Introduction to Geriatric Neuropsychiatry. 3th edition; Arlington, 2011

 

Henrique Salgado

Psiquiatra

mim – Clínica do Desenvolvimento