Sexualidade depois dos 65: realidade ou miragem?

Envelhecer resulta do amadurecimento do organismo e provoca alterações no indivíduo, não necessariamente negativas, no âmbito da saúde física, mental e relacional. A forma como cada um encara esta nova fase da vida pode ser determinante! Como parte constituinte da vida humana verificam-se mudanças ao nível da expressão da sexualidade. Assim, torna-se necessário para a pessoa “idosa” reconhecer que está numa nova fase do ciclo vital, e que à semelhança das fases anteriores, esta trará novos padrões típicos deste estádio do desenvolvimento.

Sabemos que com a idade adquirem-se experiências que trazem ensinamentos e moldam a forma como cada indivíduo experiencia a sua vida e faz as suas escolhas. Será que porque tem mais de 65 anos deve considerar-se assexual ou resignar-se a estar insatisfeito do ponto de vista da sua sexualidade? Esta ideia não faz sentido, é um estereótipo! Vejamos, o termo sexualidade não é sinónimo de ato sexual. A sexualidade envolve muito mais, ela pressupõe amor, carinho, sensualidade, fantasia e inteligência. Então, será que a velhice nos rouba tudo isto?

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o envelhecimento começaria a partir dos 65 anos. Contudo, é necessário reconhecer que a idade biológica tem maior importância que a cronológica, na medida em que a bioquímica cerebral, das emoções, pode apresentar níveis ótimos de funcionamento em termos biológicos em indivíduos com mais de 65 anos. Contrariamente a estes, poder-se-á encontrar níveis biológicos menos bons em indivíduos jovens.

No campo da sexualidade, também a família assume um papel preponderante no sentido de criar uma rede de suporte capaz de identificar alterações físicas, mentais e relacionais que possam causar desconforto ou infelicidade, de modo a procurar ajuda especializada. É frequente a necessidade deste tipo de apoio para que a pessoa “idosa” assimile e acomode as alterações sentidas.

A forma como cada género lida com a questão é distinta e ocorre em momentos distintos. O homem é capaz de ter uma ereção peniana em qualquer idade, tal como a mulher consegue atingir uma lubrificação vaginal adequada e chegar ao orgasmo. Estas respostas sexuais só ficarão “comprometidas” se estiverem perante um bloqueio físico ou psicossocial (Lopes 1993). Um outro aspecto significativo apresentado pelo mesmo autor é a monotonia sexual. A sexualidade não se reduz ao coito, o sexo pode ser o resultado de vários estímulos (auto-estimulação, fantasia, entre outros), nesta matéria a inspiração é um ingrediente favorável.

Recomenda-se que, caso não exista ausência de lubrificação ou dificuldades mecânicas, um relacionamento sexual seja mantido de forma regular a fim de evitar distrofias musculares ou distúrbios psicossexuais futuros. Revela-se extremamente importante que a pessoa “idosa” usufrua de sentimentos de apoio, partilha e respeito individualmente e na relação com o seu parceiro face as novas condições e desejos nas vivências sexuais. É fulcral o respeito pelo outro e a necessidade de permitir que cada um viva a sexualidade de acordo com as suas expectativas e respeitando os seus timings de adaptação à mudança.

Cristina faria

Psicóloga Clínica

mim – Clínica do Desenvolvimento