As crianças precisam de brincar e… Não têm tempo para isso!

Recorda-se, quando era criança, da sua noção do tempo diário? Quanto tempo tinha para brincar? A maior parte de nós, adultos, recordar-se-á de um tempo significativo entre a saída das atividades escolares e a hora de jantar… E como era passado esse tempo? Entre trabalhos de casa e muitas, muitas horas de brincadeira. Os tempos mudaram, as famílias mudaram e hoje vivemos num contra-relógio, assoberbados por tarefas e horários que nos fazem ter pouco tempo, cada vez menos tempo de qualidade para e com as nossas crianças. Elas próprias vivem mergulhadas entre as exigências dos tempos letivos, as atividades extracurriculares e as obrigações escolares, transformadas em verdadeiras “crianças trabalhadoras”! Para muitas famílias o tempo de brincar, livre de obrigações e onde a criança pode dar aso à sua imaginação, resume-se, na maioria das vezes, a um curto espaço de tempo antes do jantar.

                Mas qual a importância do brincar? Brincar é essencial para o desenvolvimento global da criança, favorecendo a sua vertente física, emocional, social e cognitiva. Por estranho que possa parecer, ao condicionarmos o tempo livre para brincar, estamos a inibir que a criança desenvolva todo o seu potencial. O jogo e a brincadeira, para além de formas de divertimento para a criança, são um importante veículo para que experiencie diferentes papéis, expresse os seus sentimentos, desenvolva capacidades cognitivas e aprenda a “ser” e a “estar”, competências essenciais para que se adapte positivamente, às diferentes circunstâncias do dia-a-dia, nomeadamente às exigências escolares.

Podemos então dividir a importância do brincar em quatro áreas fundamentais: auto e hétero conhecimento; socialização; desenvolvimento emocional e desenvolvimento cognitivo. Brincar é a ação que a criança executa para se autoconhecer e para conhecer o mundo que a rodeia, é uma necessidade que observamos desde muito cedo quando os bebés tentam interagir com o seu mundo social, com os brinquedos e com o seu próprio corpo (quantas vezes os “apanhamos” deliciados com as suas próprias mãos?). Brincar é uma forma de entendimento do mundo, e uma forma de comunicação, por isso é um processo que contribui para o crescimento. Por exemplo, uma criança que brinca ao faz-de-conta experiencia diferentes papéis, adquire novas competências sociais, sente-se encorajada a resolver problemas do seu quotidiano e a apropriar-se da linguagem para se conseguir relacionar. Por outro lado, brincar em grupo proporciona o entendimento do cumprimento de regras, da importância do respeito pelo outro e da experimentação de diferentes sentimentos. Neste sentido, a criança desenvolve importantes competências emocionais, nomeadamente na situação de jogo, ao experienciar a frustração, uma das emoções mais difíceis de aprender a expressar e a gerir, e que é inerente a inúmeras situações que vive no seu dia-a-dia, nomeadamente no contexto de aprendizagem. Uma criança capaz de gerir a sua frustração, aprende a lidar melhor com as adversidades do dia-a-dia e desenvolve maior capacidade de resolução dos seus problemas, tornando-se uma criança mais autoconfiante. Outro aspeto importante do brincar refere-se ao desenvolvimento cognitivo: uma criança que brinca desenvolve a atenção, a imaginação e a criatividade; ao brincar desenvolve o raciocínio na forma como recria a realidade e se apropria dela.

Brincar é assim um nutriente essencial ao desenvolvimento infantil, é uma forma de a criança experienciar felicidade e de desenvolver uma autoestima saudável! Por isso, use e abuse da hora de brincar com o seu filho e aproveite para colocar em prática a sua “inner child”!

Helena Pereira

Psicóloga da Infância e Adolescência

mim – Clínica do Desenvolvimento