Televisão para o bem e para o mal

No decorrer da aprendizagem social, a imitação tem um papel importante. Esta faz- se por influência dos modelos tradicionais (pais, colegas, professores…) e dos modelos simbólicos (televisão, cinema…). Sabe-se que as crianças e os adolescentes são especialmente vulneráveis às mensagens transmitidas pela televisão e que estas influenciam a sua perceção, personalidade, valores e modelos de comportamento.

Os efeitos da televisão nas crianças são explicados por duas perspetivas: otimista e pessimista. A perspetiva otimista admite que a televisão poderá promover a aprendizagem e transmitir conhecimentos acerca de diversos aspetos do mundo que de outra forma seria difícil adquirir e funcionar como um catalisador para a exploração de temas controversos ou sensíveis, tornando mais fácil para os pais discutirem-nos com os filhos.

A Perspetiva pessimista considera que a televisão fomenta a passividade e tira tempo para a realização de outras atividades tidas como mais interessantes. O impacto negativo

da televisão sobre as crianças poderá ter influência ao nível da violência, transmitindo a mensagem que esta é aceitável, faz parte da vida, é normal e até pode ser divertida; ao nível do sexo e sexualidade, presente quer na programação quer em anúncios publicitários altamente sexualizados; e ao nível da nutrição e obesidade, pela diminuição da atividade física e aumento da ingestão alimentar, quer durante a observação quer por estímulo da publicidade alimentar.

A televisão tem também influência negativa no consumo de tabaco e álcool. As referências ao consumo de álcool e de tabaco não se limitam à publicidade, estão presentes em filmes, vídeos e videoclips e são muitas vezes vistos como comportamentos socialmente agradáveis. Além disto, a televisão toma o tempo de tipos ativos de recreação, diminui o tempo disponível para conversação e troca de opiniões, reprime a propensão para a leitura, diminui o rendimento escolar e reduz a vontade de fazer exercícios.

Em Portugal, desde o início da década de 90, o fenómeno da concorrência entre os canais contribuiu para a criação de uma cultura televisiva caracterizada pela banalidade e pela superficialidade, ameaçando a qualidade e a diversidade da programação, razão pela qual os pais têm um papel muito importante na mediação dos programas que os mais pequenos têm acesso.

Antes de colocar a televisão como primeira atividade procure estimular a recreação ativa, leia para os seus filhos, limite o tempo de ver televisão para 1 hora por dia e 2 ou 3 ao fim-de-semana, não use a televisão como distração ou como ama para as crianças em idade pré-escolar e não coloque aparelhos televisivos no quarto. No caso das crianças que apresentam mau desempenho escolar, limite o tempo de televisão para meia hora por dia, estabeleça a hora de dormir, sem que esta seja alterada por algum programa televisivo que o interesse, e desligue a televisão durante as refeições.

É importante que o seu filho aprenda a escolher com discernimento os programas e a desligar a televisão quando estes terminam. É fundamental que os pais

estimulem os seus filhos a verem programas educativos e que ensinem valores humanos, proíbam os programas violentos, discutam os anúncios publicitários e os conteúdos de alguns programas, expliquem as diferenças entre a realidade e a fantasia e evitem que crianças menores de 2 anos vejam televisão.

As crianças necessitam de uma diversidade maior e mais criativa ao nível dos conteúdos, formato e personagens. Precisam de programas que transmitam valores ajustados à sociedade em que vivem, que lhes permitam alargar os seus conhecimentos, que estimulem a imaginação e que acompanhem o seu desenvolvimento.

Paulo R. C. Coelho

Psicólogo da Infância e Adolescência

Diretor Técnico da “mim – Clínica do Desenvolvimento”