Os pais, os filhos e as birras

Pensar no desenvolvimento infantil é pensar num desafio constante, repleto de metas a atingir e recheado de novidades cada vez mais surpreendentes. Lidar com o desenvolvimento de uma criança é envolver-se no mundo fantástico da descoberta e da conquista. É com este espírito que se pretende que os pais de hoje se aparelhem de armaduras educacionais, capazes de conquistar o terreno mais fértil para os homens e mulheres de amanhã. Cabe aos pais orientarem as crianças que transitam do mundo onde a fantasia e a realidade muitas vezes se confundem, para o mundo concreto, onde existem regras e limites.

É importante e saudável que as crianças explorarem, toquem, mexam e descubram o prazer de experimentar o ambiente que as rodeia. Urge, no entanto, consciencializarmo-nos de que não é saudável deixar as crianças fazerem tudo o que querem, sem regras, alimentando o sentimento de que tudo lhes é permitido.

Muitas crianças, ao serem confrontadas com as exigências, regras e limites, reagem com birras, agressividade ou choro. Estes comportamentos são uma reação normal, podendo ser resolvidos se forem abordados de forma adequada.

Olhar para as birras como algo ligado ao temperamento da criança só aumentará a probabilidade de estas continuarem a acontecer. A ausência da palavra “não” na educação das crianças e o não reconhecimento da autoridade de quem a aplica, são fatores que contribuem para o surgimento e manutenção dos problemas de comportamento.

Muitos pais cedem às birras ou porque se sentem culpados por não passar muito tempo com a criança, ou porque esta se tem portado tão bem nos últimos tempos, ou então porque estão a morrer de vergonha numa loja. Ao fazê-lo os mais pequenos ficam a saber que, se fizerem uma birra suficientemente forte, os pais vão ceder. É, pois, fundamental que os pais aprendam a não ter receio de dizer ‘não’, deixando bem claro que o amor que sentem pelos filhos é incondicional.

Por outro lado, alguns pais facilmente perdem o controlo perante uma birra, gritando e utilizando a força física. Inicia-se assim um ciclo coercivo que se torna cada vez mais difícil de controlar. Perante uma situação deste tipo, procure manter a calma, ignore por momentos a criança e o seu comportamento, evite utilizar a força física, não ameace com castigos que não vai conseguir cumprir, nem se oponha se não tiver a certeza que será capaz de ir até ao fim, converse muito e, principalmente, seja consistente nas suas respostas.

A disciplina é também uma forma de amor. A disciplina é, depois do amor, o mais importante que se pode dar a uma criança. Para se sentirem seguras as crianças precisam de sentir que os pais controlam o seu comportamento e tomam decisões, pois não têm maturidade para decidir sozinhas. Com isto, não se pretende que os pais passem a ser permissivos ou autoritários, mas sim assertivos.

Os pais deverão assumir, desde sempre, o papel de mentores dos seus filhos, fomentando o seu desenvolvimento, aplaudindo cada pequeno passo no seu progresso, e guiando-os, com apoio e incentivo, para que alcancem os objetivos adequados da forma mais ajustada.

Preparar a criança para a vida adulta implica, também, ajudá-la a mover-se adaptativamente num meio onde existem regras que ela deve respeitar.

Paulo R. C. Coelho

Psicólogo da Infância e Adolescência

mim – Clínica do Desenvolvimento