Orientação vocacional – só começa no 9º ano?

Chegando o 3o período muitos pais e adolescentes do 9o ano solicitam os serviços de Psicologia das escolas ou das clínicas privadas à procura de Orientação Vocacional (OV). Muitas vezes, chegam com expectativas irrealistas, encarando a OV como a solução “mágica” para resolver o problema eminente que terão de enfrentar nas semanas seguintes. De facto, não é realista considerar que um programa de OV desenvolvido no último período escolar ao longo de, geralmente, 5 a 10 sessões seja suficiente para apoiar um jovem confuso, ansioso, indeciso, com falta de informação ou que possui informação errada ou contraditória, a tomar uma decisão consciente e ponderada que terá um impacto tão grande no seu percurso escolar e profissional. Se a intervenção vocacional for desenvolvida com antecedência (i.e., ao longo do ano lectivo ou iniciada em anos anteriores) esta apresentará resultados mais positivos. A tomada de decisão vocacional deve ser considerada como um processo e não com uma situação pontual e circunscrita no tempo (ou seja, no final do 9o ano). Tal como qualquer outro processo é necessário encará-lo numa perspectiva de desenvolvimento ao longo do tempo. Assim, o desenvolvimento vocacional decorre ao longo do ciclo vital, com início na infância, evoluindo até à idade adulta e velhice. Nessa perspectiva, sugere- se que este processo seja, idealmente, estimulado precocemente, uma vez que as experiências de exploração vocacional vivenciadas durante a infância e a pré- adolescência influenciam positivamente os processos de tomada de decisão vocacional posteriores. Assim, o objectivo da exploração é fomentar conhecimentos vocacionais no jovem e nunca incentivar a escolha precoce de uma profissão.

Então quem pode promover a exploração vocacional dos jovens e de que forma pode fazê- lo? A resposta é muito simples: os pais, os professores, os educadores, os psicólogos bem como outros familiares. Para os mais novos sugerem-se, a título de exemplo, jogos lúdicos (dominós de profissões, dicionário ilustrado das profissões, desenhos para colorir que representam diversos profissionais) e a observação de profissionais em diversos contextos (hospital, centro comercial, escola, etc.). Essas actividades serão o ponto de partida para o desenvolvimento de conversas acerca das profissões. Por exemplo, quando está no centro comercial com o seu filho, pode sensibilizá-lo para as diversas profissões existentes pedindo- lhe para observar as actividades realizadas pelos trabalhadores, perguntando se sabe qual é o nome dessa profissão, quais são as actividades que esse profissional desempenha e se tem conhecimento da forma como se acede a essa profissão (curso profissional, curso superior, etc.)

Para os mais “velhos” poderá incentivar, para além da observação informal de diversos profissionais e de conversas acerca dos mesmos, a participação do jovem em actividades tais como, visitas às universidades e escolas profissionais, participação em “Escolas de Verão” realização de entrevistas a diversos profissionais e estudantes do ensino secundário e/ou universitário, observação e acompanhamento de profissionais ao longo de um dia de trabalho (familiares ou contactos pessoais), realização de Feiras das profissões nas escolas, etc.

Além disto, será sempre fundamental incentivar a criança/jovem a participar em diversas actividades culturais e de lazer (aulas de pintura, dança, música, etc.) bem como praticar desporto, de modo a poder desenvolver interesses vocacionais e/ou ocupacionais bem como permitir a identificação das áreas em que possui mais ou menos capacidades.

Por fim, não se esqueçam que as actividades de exploração vocacional deverão surgir, desejavelmente, num clima positivo, caracterizado pelo convívio, espontaneidade, partilha, aceitação e não obrigatoriedade. Caso contrário, o jovem poder-se-á sentir demasiado pressionado e recusar qualquer ajuda externa…

Séli Chaves de Sousa

Psicóloga da Infância e Adolescência

“mim – Clínica do Desenvolvimento”