O sono e a infância – dormir mais para crescer melhor

É cada vez mais comum encontrarmos pais preocupados com o comportamento dos filhos no momento de ir para a cama. A verdade é que, a maioria das crianças, nalgum momento da sua vida, já se manifestou resistente em ir dormir. No entanto, 11 a 13 horas de sono durante o período pré-escolar e 10 a 11 horas durante a idade escolar são fundamentais para o seu desenvolvimento.

Vários estudos têm demonstrado que a falta de sono noturno, especialmente na primeira infância, pode afetar o desempenho cognitivo da criança na escola, aumentado também a probabilidade de esta desenvolver características de Hiperatividade e Impulsividade aos seis anos de idade. De acordo com a Academia Norte-americana da Medicina do Sono, para terem uma boa noite de sono, as crianças precisam de ter uma rotina, dormindo o mínimo de horas desejáveis para a sua idade e adormecendo e acordando sempre à mesma hora.

É um facto que, aos 2-3 anos de vida, o aumento da autonomia nas crianças funciona como um fator precipitante para um “não!” no momento de ir para a cama. Nesta fase a criança tem tendência para testar os limites dos pais com várias justificações: “não quero ir para a cama”, “só mais uma história”, “quero mais leite” … Cabe aos pais e educadores orientá-los para a rotina mais adequada e saudável.

Muitas vezes, perante um não imediato da criança, alguns pais, por terem passado todo o dia longe, cedem aos seus inúmeros pedidos, aproveitando para estarem com ela mais tempo. Apesar de este comportamento ser compreensível, importa realçar que não ajuda a criança a aprender a criar o seu próprio ritmo de sono, fomentando a probabilidade da utilização da palavra “não!” surgir noutros dias e noutras circunstâncias.

Para evitar que a criança recuse ir para a cama, é fundamental que os pais criem

uma rotina, com uma hora fixa e rituais associados ao sono, funcionando como um momento calmo de transição entre a brincadeira ativa e o sono.

Após a refeição, deverão ser evitadas as brincadeiras demasiado ativas, assim como a televisão e os jogos multimédia. É importante que sejam privilegiadas as histórias, os jogos calmos (bonecas, carrinhos, desenhos…), assim como os objetos de transição (peluche, mantinhas…), de forma a acalmar a criança e oferecer aconchego e segurança na hora de dormir. Além disto, os avisos prévios, informando a criança que, por exemplo, “no final da história/brincadeira é hora de ir para a cama!”, poderão evitar uma birra.

Por volta dos 4-5 anos muitas crianças começam a manifestar vários medos: dos monstros, das bruxas, dos ladrões…, utilizando-os como justificação para dormir na cama dos pais. Nestas situações os pais devem dar segurança e atenção à criança, direcionando-a para o seu quarto e mostrando que não há monstros nem bruxas. Ouvir a criança, sem desvalorizar os seus medos, aconchegá-la e assegurar-lhe que estará sempre atento para que nada de mal lhe aconteça, poderá ser uma forma de ajudá-la a adormecer sozinha sem precisar de recorrer à cama dos pais.

As luzes de presença ou luzes noturnas poderão também funcionar como auxiliares para acalmar a criança. Não ceda aos choros, um beijo, um abraço e uma palavra de segurança são suficientes.

No caso das crianças mais resistentes, uma negociação prévia, como: “se não chorares nem saíres da cama, daqui a 10 minutos venho te visitar e certificar-me que está tudo bem” poderá ser um bom início. No entanto (nota importante!), não se esqueça de ir visitá-la, mesmo que a probabilidade de esta já estar a dormir quando lá chegar seja grande! Se falhar hoje, no caso de passados 10 minutos a criança ainda estar acordada, amanhã a sua promessa já não terá efeito.

E, quando tudo correr bem, na manhã seguinte não se esqueça de elogiar a criança e dar-lhe muitos mimos!

Paulo R. C. Coelho

Psicólogo da Infância e Adolescência

Diretor Técnico da “mim – Clínica do Desenvolvimento”