O desenvolvimento tem birras

As birras… ora vejamos: quando o bebé chora por comida, esta rapidamente lhe é disponibilizada; quando tem a fralda suja, esta é imediatamente mudada! Ou seja, desde que nasce a criança é educada para que as suas necessidades tenham respostas rápidas. No entanto, quando cresce, esses timings começam a ser cada vez mais latos e amplos. A criança tem, por isso, dificuldade em compreender a diferença temporal das respostas e procura, através do seu comportamento, transmitir aos outros que se sente insegura ou que não os compreende.

Este é um dos muitos maravilhosos desafios que os pais terão pela frente. Lidar com o desenvolvimento de uma criança é envolver-se no mundo fantástico da descoberta e da conquista. É com este espírito que se pretende que os pais de hoje se aparelhem de armaduras educacionais, capazes de conquistar o terreno mais fértil para os homens e mulheres de amanhã.

Cabe aos pais orientarem as crianças que transitam do mundo onde inicialmente tudo lhe era satisfeito e onde a fantasia e a realidade muitas vezes se confundem, para o mundo concreto, onde existem regras e limites.

É importante e saudável que as crianças explorarem, toquem, mexam e descubram o

prazer de experimentar o ambiente que as rodeia. Urge, no entanto, consciencializarmo-nos de que não é saudável deixar as crianças fazerem tudo o que querem, sem regras, alimentando o sentimento de que tudo lhes é permitido. Olhar para as birras como algo ligado ao temperamento da criança só aumentará a probabilidade de estas continuarem a acontecer.

A ausência da palavra “não” na educação das crianças e o não reconhecimento da autoridade de quem a aplica, são fatores que contribuem para o surgimento e manutenção dos problemas de comportamento. Não “psicologizar” de mais o desenvolvimento infantil poderá ser uma ajuda na educação das nossas crianças. Os traumas da infância não são provocados por um “não!” convicto no momento certo.

Muitos pais cedem às birras ou porque se sentem culpados por não passarem muito tempo com a criança, ou porque estão a morrer de vergonha numa loja, ou, simplesmente, porque não estão com paciência para lidar com esta situação. Ao fazê-lo os mais pequenos ficam a saber que, se fizerem uma birra suficientemente forte, os pais vão ceder. É, pois, fundamental que os pais aprendam a não ter receio de dizer “não”.

Alguns pais facilmente perdem o controlo perante uma birra, gritando e utilizando a força  física. Inicia-se assim um ciclo coercivo que se torna cada vez mais difícil de controlar. Perante uma situação deste tipo, procure manter a calma, ignore por momentos a criança e o seu comportamento, evite utilizar a força física, não ameace com castigos que não vai conseguir cumprir, nem se oponha se não tiver a certeza que será capaz de ir até ao fim, converse muito e, principalmente, seja consistente nas suas respostas.

A disciplina é também uma forma de amor. A disciplina é, depois do amor, o mais importante que se pode dar a uma criança. Para se sentirem seguras as crianças precisam de sentir que os pais controlam o seu comportamento e tomam decisões por si. As ordens e a disciplina deverão ser sempre contrabalançadas com carinho, elogios e sensibilidade para com as necessidades específicas dos filhos.

Os pais deverão assumir, desde sempre, o papel de mentores dos seus filhos, fomentando o seu desenvolvimento, aplaudindo cada pequeno passo no seu progresso, e guiando-os, com apoio e incentivo, para que alcancem os objetivos adequados da forma mais ajustada.

Preparar a criança para a vida adulta implica, também, ajudá-la a mover-se adaptativamente num meio onde existem regras que ela deve respeitar.

Paulo Coelho

Psicólogo da Infância e Adolescência

Director Técnico da “mim – Clínica do Desenvolvimento”