Maus-tratos em pessoas idosas

O fenómeno dos maus-tratos em pessoas idosas não é um acontecimento recente. A violência contra pessoas idosas começou a obter reconhecimento social na década de 90, tendo como países pioneiros no estudo deste fenómeno a Inglaterra e os Estados Unidos.

Em Portugal, só recentemente esta questão ganhou relevo, sendo reconhecida como um problema social enquadrado num contexto de rápida mudança social, incluindo ao nível familiar, das normas tradicionais e nas habituais práticas de cuidados. As Nações Unidas veem-na como resultado de esforços sociais e económicos em famílias com parcos recursos, nas quais as pessoas idosas são percebidas como um peso. O acentuado envelhecimento da população preocupa instâncias políticas e sociais. A nível político, o número cada vez maior de reformados e o aumento do número de anos em que são pagas as reformas (cada vez mais é maior a longevidade da população) acarretam preocupações adicionais aos países, relativamente ao seu equilíbrio financeiro.

Socialmente, a preocupação centra-se na perceção das famílias de que os idosos são um encargo financeiro e uma sobrecarga para o seu quotidiano atarefado.

Entende-se o mau trato como abuso físico, emocional ou psicológico infligidos a uma pessoa idosa por cuidadores formais ou informais. O abuso é repetido e existe violação dos direitos humanos e civis efetuados por uma pessoa, ou mais, que tenha poder sobre a vida da pessoa idosa. Será comummente aceite por todos que, o mau trato resulta em sofrimento para a pessoa idosa envolvendo violação dos direitos básicos do ser humano.

As mulheres idosas apresentam taxas mais elevadas de abuso em comparação com os homens e que a população idosa acima dos 80 anos apresenta também maior incidência de abuso comparativamente com os idosos abaixo dessas idades. Também parece haver uma convergência para considerar a negligência (recusa ou ineficácia em satisfazer qualquer parte das obrigações ou deveres para com um idoso), o tipo mais frequente de maus-tratos a pessoas idosas. Não esqueçamos que as estatísticas formais são apenas a ponta do iceberg do volumoso fenómeno dos maus- tratos em pessoas de idade na sociedade atual e que o assunto é ocultado pelas próprias vítimas devido ao receio de perder o cuidador mesmo sendo este abusivo; ser colocado numa instituição; exposição pública, entre outros.

Os principais perpetradores de abuso aos idosos, apontados pela investigação, são os familiares (filhos, cônjuges ou outros familiares). Alguns indicadores e fatores de risco associados ao mau trato poderão estar relacionados com o próprio idoso (conflitos conjugais/familiares, pouca compreensão da sua condição médica, sofrer de isolamento social, ser financeiramente dependente) ou com o cuidador (ter problemas de comportamento, estar financeiramente dependente, ter problemas mentais/emocionais, relação passada com o idoso de baixa qualidade), podem potenciar situações de abuso.

Estes são sinais de alerta que ajudam a identificar ou despistar possíveis situações de maus-tratos que por vezes passam despercebidas aos olhares menos atentos.

Cristina Faria

Psicóloga Clínica

mim – Clínica do Desenvolvimento