Brincar para crescer

Atualmente muitos pais consideram a brincadeira com os filhos uma perda de tempo, centrando as suas atividades no progresso e sucesso académico e ignorando o brincar como uma condição essencial para o desenvolvimento da criança.

Brincar permite o desenvolvimento de capacidades como imaginação, memória, atenção, imitação, concentração, pensamento e linguagem. Nas brincadeiras a criança aprende a fazer, a conhecer, a conviver, a relacionar-se com o mundo que a rodeia e a refletir e interiorizar a realidade e a cultura na qual está inserida. Ao brincar com adultos, a criança é estimulada a adquirir vocabulário, a exprimir os seus sentimentos e necessidades e a interagir socialmente, aprendendo a respeitar os outros, a partilhar e a esperar pela sua vez.

O tipo de brincadeiras e interesses da infância estão diretamente relacionados com a etapa desenvolvimental em que a criança se encontra. Dos 0 aos 2 anos é comum a criança manifestar mais interesse por jogos de exercício. As suas brincadeiras centram-se na exploração de objetos através dos sentidos, da ação motora e da manipulação, oferecendo-lhe sentimentos de poder e eficácia e fortalecendo a sua autoestima.

Por volta dos 2 anos, até aos 6, a criança começa a mostrar interesse pelos jogos simbólicos. Privilegia os jogos “faz-de-conta”, atribui significados diferentes aos objetos, gosta de desenhar, de ouvir história, etc. Estas atividades permitem que a criança compreenda e assimile os papéis sociais inerentes à sua cultura e desenvolva diversas competências sociais, emocionais e cognitivas. Encorajar o “faz-de- conta” é ajudar a criança a gerir as suas emoções e a partilhar sentimentos.

A partir dos 7 anos de idade, o interesse da criança centra-se nos jogos com regras. Este tipo de atividades fomenta a capacidade de tomada de decisão, permite a aprendizagem e o cumprimento de regras e estimula a criança a regular o seu comportamento, a relacionar-se com os outros, a socializar-se e a controlar a impulsividade.

Infelizmente, cada vez mais se verifica que muitos pais não brincam com os seus filhos simplesmente por não saberem como fazê-lo. Uma boa forma dos pais contornarem esta questão é deixarem-se guiar pela criança durante as brincadeiras e seguirem o seu ritmo. A criança precisa de tempo para usar a sua imaginação e, embora nos pareça aborrecido, necessita de repetir a brincadeira muitas vezes até decidir

fazer algo diferente. Não a force a mudar a sua forma de brincar e esteja atento aos seus sinais, ela indicar-lhe-á quando estiver preparada para uma nova brincadeira.

Além disto, a criança necessita de incentivo para prosseguir nas suas atividades, se não lhe der atenção positiva é provável que ela procure obtê-la de outra forma, fazendo algo que desagrade os adultos. Inverter esta tendência poderá ser uma solução. Procure apreciar, encorajar, elogiar e comentar positivamente a criatividade da criança. Esta é também uma boa oportunidade para lhe falar sobre os sentimentos que está a manifestar durante a brincadeira, de forma a ajudá-la a reconhecer as suas próprias emoções.

Tudo isto poderá ser promovido em contacto com outras crianças. Desta forma a criança assimila competências sociais indispensáveis para

um ajustamento social de qualidade: aprende a estar socialmente, a respeitar regras, partilhar, ajudar, pedir, esperar pela sua vez, etc.

Por fim, importa realçar que proporcionar um ambiente rico para a brincadeira não é o mesmo que ter muitos brinquedos caros, é sim procurar que a criança explore diferentes linguagens (musical, corporal, gestual…) e desenvolva diferentes competências físicas, cognitivas e sociais através de atividades simples, diversificadas e animadas.

Paulo R. C. Coelho

Psicólogo da Infância e Adolescência

Diretor Técnico da “mim – Clínica do Desenvolvimento”