A pediatria do neurodesenvolvimento

Em cada família o nascimento de uma criança é um momento especial de celebração da vida. Para os jovens pais o seu bebé é um ser precioso, idealizado como perfeito, e vão fazer tudo para o manter saudável e feliz. Ao Pediatra que acolhe esta família, cabe a responsabilidade de vigiar o seu crescimento, mas também o seu desenvolvimento psicomotor.

E falamos de quê? O desenvolvimento psicomotor (DPM) da criança é a aquisição espontânea de tipos progressivamente mais complexos e eficazes de comportamento, que lhe permitem interagir com o meio que a rodeia. Estas aquisições individuais resultam em capacidades cognitivas verbais e não- verbais que fazem com que cada individuo seja um ser único. O Pediatra que vai assistindo ao desenvolvimento global da criança, não zela só pelo seu crescimento estaturo-ponderal, por uma alimentação variada e equilibrada, ou pelo cumprimento do esquema vacinal, vai manter-se atento ao seu desenvolvimento psicomotor.

Os padrões locomotores rudimentares – sentar, gatinhar, andar e correr – são “preocupação” habitual dos pais no primeiro ano de vida. Como tal, qualquer desvio da norma é precocemente identificado e alvo de intervenção. Um exemplo de desvio de DPM a que devemos estar atentos é a ausência de gestos tão simples como o apontar para pedir ou mostrar. Este pode ser um indicador precoce de perturbações graves da comunicação/socialização. E a criança que não fala? Preocupa? O importante é saber como é o desenvolvimento nas restantes áreas. Não fala, mas parece compreender o que lhe dizem, faz-se compreender de qualquer outra forma, é uma criança comunicativa? Podemos aguardar a evolução. Mas se a linguagem não é compreensível por estranhos e não tem um fim comunicativo, é ecolálica ou regrediu, devemos procurar ajuda.

Os desvios do DPM podem adquirir um caracter patológico, e serão esses os objetos de avaliação da Pediatria do Neurodesenvolvimento. Na consulta de Pediatria de Neurodesenvolvimento, com recurso a testes estruturados de rastreio e diagnóstico, é feita uma avaliação sistematizada de todas áreas de DPM

incluindo a motricidade global, a manipulação, as competências sensoriais, como a visão e a audição, a comunicação e a linguagem, os afetos e as emoções, traduzidas no comportamento social.

Na primeira infância as patologias do neurodesenvolvimento incluem, as deficiências motoras, como a paralisia cerebral; os atrasos globais de DPM; as perturbações sensoriais, como a surdez ou a cegueira; e as perturbações da comunicação, incluindo a perturbação específica da linguagem e as perturbações do espectro do autismo.

Podemos concluir que o DPM das crianças é tão variável, como previsível. Faz-se por etapas e fases que são idênticas para todas as crianças. Cada criança vai ter o seu ritmo, com ampla variação da aquisição

temporal das diversas etapas de desenvolvimento psicomotor, mas nenhuma pode queimar etapas prévias de desenvolvimento. As crianças com problemas de desenvolvimento devem ser avaliadas não só para se obter um diagnóstico, mas para traçar um perfil que estabeleça as suas áreas fracas e fortes, e um programa de intervenção precoce que permita corrigir as perturbações ou minorar o seu impacto.

Tal como o DPM, o conceito de felicidade é também amplo…, mas qualquer que seja a patologia em causa, temos obrigação de acreditar no potencial da criança e garantir a sua integração na sociedade, do modo mais autónomo possível e cumprindo os seus sonhos e os da família.

“O meu sonho é ver-te sorrir. E o Teu?” (U.Dream)

Margarida Pontes

Pediatra do Neurodesenvolvimento

mim – Clínica do Desenvolvimento